A lenda do monstro {Textos Soltos}

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Era segunda-feira, um dia normal, numa semana normal que acabara de começar e ninguém suspeitava que tal animal desconhecido entrasse na cidade onde viviam. Os pais que deixavam as crianças irem para a escola sozinhas, prendiam-nas e telefonavam aos professores explicando que não era seguro. Os comerciantes fechavam lojas por onde o animal desconhecido passava. Os adolescentes pegavam em paus e corriam atrás dele, até suas mães chamarem-nos, com medo correndo nas suas vozes em uníssono. Alguns que não o tinham ainda observado de perto ou longe, ouviam as suas histórias à distância, com ouvidos de curiosidade.
Tem três metros de altura!, diziam
Tem pêlo de urso!, gritavam
E dentes de tubarão!, choravam
Acho que vai comer-nos a todos, pensavam
Mas uma jovem cientista, não mais do que vinte e cinco anos ela tinha, despertou com curiosidade perante tal lenda. Lenda era, pois nem provas havia. Com seus óculos reflectindo o brilho dos seus olhos cheios de inteligentes teorias, procurava uma resposta para aquele animal que todos diziam existir, e ainda não pusera seus olhos em cima. Com mala feita para ir para a Universidade trabalhar, adiou a viagem de regresso, e falou com o cientista maluco da pequena cidade. Explicou-lhe, sem muito mais senão, que a criatura precisava de estudo aprofundado. Talvez um exame sanguíneo, uma biopsia ou até mesmo um estudo de ADN. Mas primeiro teria que encontrar a criatura.
Uns diziam que escondeu-se nas montanhas, mas essas ficavam a léguas de distância.
Outros murmuravam que andava escondendo-se no lar de uma família amedrontada.
Mas ela sabia muito bem que nenhuma dessas afirmações eram verdades, e que as verdades não seriam ditas. Logo, preparou uma mochila e com caminho feito, andou pela cidade. Um pequeno bloco de notas pousava nas suas mãos, gatafunhando as suas páginas com tudo o que os habitantes lhe diziam. Conhecia-os desde infância, desde a sua primeira feira cientifica escolar, até ao dia em que lhes disse adeus para completar seus estudos. Eram-lhe muito queridos ao coração, por isso duvidava que dissessem mentiras. Com dez páginas do pequeno bloco repletas de afirmações, seguiu suas pistas. Enquanto passava perto de um beco, ouviu choramingar. Não, não choramingar: uma mistura de grunhidos, choro e súplicas. Um nuvem de sombras surgiu perante os seus olhos, e a curiosidade avisou-lhe de ter cuidado. Aproximou-se. Murmurando “quem está aí”, aproximou-se ainda mais. Viu as sombras tornarem-se numa imagem real de uma criatura pequena, talvez pequena para o que todos diziam que era, mas real. A jovem cientista encheu-se de entusiasmo… e medo. Mas a pequena criatura, tirou-lhe o medo todo quando murmurou o que parecia ser o choro de uma infância sem ninguém. Estava sozinha – ou sozinho – sem ninguém que viesse a seu socorro. Meia assustada, a jovem cientista aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro. Vendo seus olhos cheios de medo da solidão, apercebeu-se de que não podia ser o monstro que causara tanto terror na cidade. Fora um engano.
Sorrindo-lhe, pensou que ali havia moral a retirar. Iria contar aos habitantes, tudo o que sabia, e faria-lhes crer que não havia nada a temer. Pois nem tudo o que aparente ser, na realidade é; por vezes enganamos-nos, e isso é humano. E com o sorriso ainda transparecendo nos seus lábios, acreditou plenamente nas suas palavras.
Iria pôr um final feliz, naquela história.

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As labaredas {Texto Solto}

As labaredas caminham como rainhas do campo

Levam tudo o que encontram, até o que outros amaram

Sem medo, receio ou culpa que as pese.

Mãos malditas, que atearam este fogo que aqui domina

E a destruição que pelo chão deixa, marca tudo o que

O trabalho de uma vida, cinzas foi desfeito.

Sem saber o que diga, rimas na minha manga não tenho

Pois todas o vento levou, que por aqui passou

Leve-me vento, leve-me. Não quero destruição

Não quero dor.

Quero uma vida a recomeçar do zero.

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Nota de autor: A minha região foi dominada por incêndios. Dias atrás tive de ver a destruição que o fogo deixou para trás, e partiu-me o coração ver a minha cidade, a cidade onde nasci, destruída. Felizmente que tudo recuperou, as pessoas lutam para sobreviver, ajudam-se uns aos outros. É na tristeza que vemos a força. E é isso que quero demonstrar neste poema. 

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Crianças de Ontem, Crianças de Hoje {Textos Soltos}

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Em criança, corria e saltava. Arranhava joelhos brincando, e exigia Sol que permitisse demais brincadeiras! Não sei se o que fui em criança, moldou como sou hoje, mas sei que teve um grande papel nos meus gostos em adulta. Olho para as crianças de hoje, e vejo-as apegadas a objectos tecnológicos, sem saltos e piruetas na coreografia da infância – somente movimentos pré-planeados e repetidos do polegar e outros mais dedos, num ecrã táctil ou teclas de um video jogo num computador. Mas animo-me ao olhar para o palco de brincadeiras em redor do meu lar, vendo-as usando uma corda velha para saltar como num trampolim, ou bicicletas para passeios curtos mas divertidos. O telefone servia para chamadas entre amigos distantes, não havia telemóveis. E juro que a existência destes, diminui os momentos divertidos entre juventude. Logo que estes apareceram ,tinha eu dez anos, duas mãos cheias de idade, quando todos em meu redor queriam um. Tinha eu essa mesma idade, e quem eu chamava amigo sabia de eu algo que eu nem sequer imaginava que algum dia fosse existir – internet. Esta maravilha da tecnologia tem suas desvantagens, mas tem igualmente vantagens. Com ela posso partilhar meus gostos e meus sonhos ao mundo por escrita variada, mas acho que prende-nos mais que nos liberta. Por isso, nada faz-me mais feliz que crianças arranhando seus joelhos e rindo com amigos, cicatrizes partilhando – porque isso quer dizer que brincaram! Bonecas sem pernas ou cabeça, porque foram usadas com criatividade! Brinquedos foram feitos para ser usadas até o seu fim chegar, não para serem estátuas no museu da infância perdida. Não foram feitos para adoração, mas para desgaste infantil. Se algum chegar à adolescência, digo-vos que será amado com um sorriso, porque sobreviveu mais que outros. Em criança eu brincava. E não me arrependo nem um pouco, não sinto menos que saudades desses tempos. Da liberdade. Do espaço livre. Do ar. Do movimento. E talvez seja verdade, talvez moldou o meu ser de hoje… porque agora aplico essa criatividade divertida em histórias e contos, que partilho com o mundo. Mas não me arrependo. Porque fez-me quem sou.

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Vigorexia (Textos Soltos)

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Começou com um simples dia a mais por semana, mais um treino, mais uma hora. Um desejo ardente que lhe pulava no peito e o exigia fazer mais, mais e mais. Tornou-se numa obrigação, não um direito mas num dever que lutava por completar diariamente. Quatro dias, cinco dias, seis dias, sete dias por semana. Um hora, duas horas, três horas seguidas. O que antes era suficiente, não iria-lo ser neste momento ou no seguinte. Nada era suficiente. Cinco quilos, dez quilos, quinze quilos, trinta quilos. Pega em mais, luta mais, ergue mais, sê mais. O ginásio tornou-se em sua casa, e sua casa em apenas um lugar para dormir. Amigos perderam-se, família esqueceu-se. Mudou de lar, para puder fazer mais que quando vivia com seus parentes. O trabalho era apenas uma distracção, um método de pagar o que devia, o que o seu cérebro pedia e exigia cada dia mais. Tornou-se num eremita, numa pessoa que vivia para a musculação e máquinas, cujas pernas colavam-se ao tapete da passadeira eléctrica, e mãos às barras. Lesões começaram por surgir. Um tornozelo dorido, um pulso, um ombro, um joelho. Articulações começavam a falhar-lhe, mas ele não falhava à voz na sua cabeça que lhe exigia cada dia um pouco ou muito mais. Descobriu que havia mais para conseguir, que podia tomar comprimidos que lhe forneciam energia e músculos desejados. Buscou-os. Tomou um, dois, três. Tornou-se uma obsessão. Os amigos que ainda restavam, perguntavam-lhe onde ele fora, quem ele era. Mas nem ele sabia quem ele era. Um monstro, um monstro controlado por um cérebro que não era dele. Com pensamentos de que nunca fora suficiente. Olhando-se ao espelho, viu quem nunca queria ser. Caiu sobre os seus joelhos, não sabendo como para-lo. Estava preso. Preso num pesadelo. E só um nome o libertou, só um substantivo o parou e o fez buscar ajuda que precisava, buscar no seu mais íntimo quem o fizera assim e só aí percebeu que eram suas inseguranças que o transformaram num monstro eremita. Recuperação. Era a sua palavra, a que levava perto do peito, lutando todos os dias para tornar-se mais saudável mentalmente, tanto como fisicamente. Menos lesões, mais amigos. Menos horas no ginásio, mais sorrisos e gargalhadas. Ele estivera preso no pesadelo da vigorexia, mas agora era livre.

Nota de autor: Li sobre este assunto tempos atrás, e achei que devia testar as minhas capacidades e pôr-me do lado de alguém que sofre de dismorfia muscular ou vigorexia. É um transtorno psiquiátrico, e como descrevo aqui, precisa de ajuda psicológica para descobrir a origem, como qualquer transtorno psiquiátrico. Espero que gostem, e percebam que tudo o que sei sobre isto, são pontos aqui e acolá de artigos online. 

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Para quem tem quem não acredite nos seus sonhos – Uma Carta de Motivação

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Se alguém duvida dos teus sonhos, critica-los ou até mesmo o teu ser, não sintas-te solitário num mundo contra ti. Pedras e paus podem partir meus ossos, mas palavras nunca irão magoar-me? Pelo contrário, aí a sociedade que acredita nessa frase, engana-se. Engana-se redondamente. Palavras são mais ásperas que rochas angulosas, são mais espinhosas que ramos de rosas – são duras, atingem-nos como um mergulho num mar em maré baixa, com rochedos por debaixo; como uma tempestade de granizo que nunca esperámos que chegasse. Palavras doem, doem mas tanto que nem sabemos como elas nos atingiram tanto, quando na verdade esconde-mo-nos no ínfimo do coração gelado que levamos connosco. Porque, quem sofre com críticas, cresce pele grossa – para puder suportar toda a realidade pesada que carrega. Pois nem todos vão concordar com o que nós queremos para a nossa vida. Mas que fazer?

Um sonho, é uma casa. Uma casa de tijolos e construção demorada. Primeiro formam-se os alicerces, o “gosto pela coisa”. Depois o gosto cresce, e torna-se em ligeira obsessão – ocupa nossos dias, nossas noites e nossas tardes e manhãs; nossos dias de trabalho e fins-de-semana, férias e horas de almoço. Puseram-se as paredes e o chão! Só que para puder-mos pôr um telhado, e proteger-nos do frio e chuva… necessitamos de uma ajuda extra, uma escada, uma inspiração exterior, uma motivação nos nossos corações. Pena é, que quando pomos as telhas, a chuva de granizo (leia-se, críticas) começa e destrói o que construímos. Mas o gosto… a ambição… o desejo! – isso continua. As paredes não se desconstruíram, os alicerces lá continuam, a força de lutar lá fica. Por vezes adormecida, por vezes distraída pela corrente destruição, mas permanece. O problema reside, na constante destruição do telhado, que com tanto amor e desejo construímos, com nossas próprias mãos. Desistimos. Fechamos-nos no nosso mundo. Escondemos-nos. Esquecemos o sonho.

Mas não! Aqui estou eu, oferecendo-te as telhas, a escada, um par de mãos e um sorriso; tudo num embrulho dourado e com palavras inspiradoras. “Tu consegues” “tu mereces” “tu és capaz”. E enquanto isso acontece, tu repetes “eu consigo” “eu mereço” “eu sou capaz”, porque consegues, mereces e és capaz.

Quer seja arte ou ciência, literatura ou pintura, canto ou medicina – o teu sonho vale tudo, o teu sonho deu-te força de viver, e se fez-te acreditar num mundo melhor, porquê deitar tudo abaixo, por alguém que não é tu? Alguém que não sabe o quão importante esse sonho é para ti, o quanto ele corre nas tuas veias, o quanto ele preenche as tuas noites com imagens do que poderias ser! Essa pessoa, nunca poderia saber o quão importante este sonho é para ti, porque não é tu, porque não está ligado aos teus pensamentos. Por mais que tentes explicar, talvez seja difícil para eles compreenderem.

Limita-te a acreditar em ti, lutar por isso e nunca desistir. Um dia olharás para trás e verás… que bela casa construíste, que belas paredes decorastes, com os frutos dos seus sonhos e objectivos!

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Apaga esta dor {Poema}

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Diziam que nada era, mas tudo seria
Diziam que nada fora, mas tudo ficaria
As memórias, para nunca desaparecem
Pois com elas, marcas cá permanecem
Que fazer? Somente esperar
Esperar que um dia o vento as lave
Ou que o mar as esvoasse
Por entre as escumbras de um passado
Que eu sempre quis obscurecer
Apagar para o dia futuro que virá
Mas esse dia, nem tarde nem cedo chega
E eu espero, espero tanto
Enquanto tu continuas escondendo-te
Aparece! Aparece! Aparece!
Apaga esta dor que tu fizeste

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Eu sou nada {Poema}

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Disseram-me que era um nada

Que era apenas espaço a mais no mundo

Fizeram-me crer em expressões danadas

Verdades enganadas.

Deram-me um caderno sem conteúdo

Mas caneta, sem vê-la ou senti-la

Avisando-me que não sou mais que

Um mundo sem pintura.

Mas que sou eu então? Somente um corpo

Sangue, ossos, músculos e pele

Alguém que faz outros sorrir e dançar

Mas com ninguém que se importe.

Porém se em mim acreditar

Posso lutar contra eles e adversidades

Ser eu, ser um mundo, ser verdades

Ser livre e brilhar.

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Projecto “Escrita Colectiva” de João Jesus (+ Texto “Estarás no meu passado”)

Olá meus leitores!

Trago-vos uma bela novidade, divulgação e ideia, tudo em um – que acham? A novidade é que um dos meus textos foi publicado num blog, “Letras Aventureiras” de João Jesus. O texto chama-se “Estarás no meu passado” e espero que gostem, podem lê-lo aqui.

Se quiserem que o vosso texto seja publicado no blog do João Jesus, podem enviar-lhe um e-mail com este. Deixo também o link para o projecto “Escrita Colectiva”, dêem-lhe uma olhadela, não irão arrepender-se.

estarás no meu passado

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Disseram-me que era anormal {Textos Soltos}

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Disseram-me que era anormal, disseram-me que não pertencia a este mundo, que era algo extraterrestre – mas pior que isso, usaram a palavra “algo”. Disseram tantas coisas que eu cresci acreditando que nada do que diziam era mentira, somente verdades puras e honestas. Porém foi quando chorei a minha dor que me garantiram “normal? Mas o que é normal?”. E pus-me a pensar. Qual será a definição de normalidade para uma comunidade que em nada rege-se pelo mesmo normal? Normal é generalização de algo que não é comum a todos, mas à população que essa palavra atribui a uma certa característica ou conjunto de características. Mas deveríamos analisar com profundidade – e tomar como certo, como lei – o que é dito, ou quem o disse, sabendo então o que os levou a utilizar tal palavra que nada mais é que relativa a um determinado pensamento único a cada um de nós? Quando dizem “era um dia bonito”, será que referem-se ao dia solarengo que muitos assumem ser perfeito, ou ao dia chuvoso que muitos aceitam como o seu dia bonito? Como a palavra “bonito” – e muitas outras, “feio”, “alto”, “baixo” – é relativa, será que normalidade também não pode ser relativa e subjectiva a um determinado grupo de população? Então sendo assim, o que é normal? Foi por isso que assumo, desde agora e para o sempre, que normal… é o que para mim foi normal. E por isso, como eu sou eu e nada mais, eu sou normal.

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