Crónica de Vida #7 (Palavras Sábias)

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Todos os anos planeamos mesmas coisas, novas resoluções, novos desejos, novos objectivos. Mas serão mesmo novos? Não serão somente repetições de resoluções, desejos e objectivos antigos, pensamentos que nos perseguem 31 de dezembro atrás de 31 de dezembro, meia noite atrás de meia noite, doze badaladas atrás de doze badaladas? Com champanhe a dançar nas nossas papilas, e passas marcando o passo de cada um destes pensamentos, planeamos que é desta que eles se realizam, mas serão mesmo? Será mesmo este o ano? Mas passa mais um dezembro, e nenhum deles (ou poucas deles) se realizaram. Que fazer? Sonhar, desejar, pedir e rezar! Novamente – desdobra, engoma e volta a dobrar, porque é um ciclo vicioso e nada o irá impedir. Porque as nossas resoluções nada mais são que representações dos nossos pedidos materiais. Pedidos materiais, repito.
E se desta vez, tentar-mos coisas mais pequenas?
Em vez de ir ao ginásio, agradecer as coisas pequenas mais.
Em vez de comer saudável, sorrir mais.
Em vez de ter melhor trabalho, abraçar mais.
Em vez de um novo parceiro, apreciar a vida mais.
Em vez de mais dinheiro… ser feliz consigo e sem extras ou coberturas ou adoçantes artificiais.
Porque os extras dissipam-se, mas a nossa felicidade fica. Se associar-mos a nossa felicidade a coisas ou pessoas, estarem a perdê-las se perdermos essas coisas ou pessoas. Mas nós? Nós estamos connosco para sempre, para O sempre.
Por isso, em vez de pedires coisas exuberantes…
…pede para aprender a ser feliz contigo.
E tudo o resto virá. Também vou tentar. Tentaremos juntos.

  • Elizabete Reis

Crónica de Vida #6 (Asassínos de Animais)

Quando tinha sete anos tive o meu primeiro pesadelo com um cão. Acordei em suor e controlando gritos, e lembro-me de ainda sentir os dentes do cão do meu pesadelo na minha pele e tremer porque doía tanto que eu não compreendia o porquê. Chorei, levantei-me e pedi aos meus pais para deitar-me com eles. Nunca odiei cães ou desejei-lhes a morte.

Os pesadelos duraram seis anos de terror, e no início forcei-me a ficar acordada e perdia noites de sono com medo que os cães me perseguissem e me levassem à morte mental por completo. Fugia de cães em geral e tremia quando os via perto de mim. Nunca odiei cães ou desejei-lhes a morte.

Mas por algum motivo, a população da minha pequena cidade e bairro ganhou um ódio ardente e sedento de sangue por gatos. Acusam-nos de ladrões por rasgarem sacos que estão no lixo aberto, quando os cães que glorificam arrancam sacos das mãos da população. Acusam-nos de desordeiros por andarem em todo o lado e fugirem dos humanos, quando os cães ladram a ameaçam morder alguém e provocam gargalhadas ao ver o medo nos olhos das crianças. Acusam-nos de crimes que nunca cometeram e acham-se réis da justiça por pôr-lhes um fim às sete vidas que supostamente deveriam viver.

Nunca desejei mal a um cão ou odiei-o. Não gosto, não convivo com eles. Mas muitos cães na minha vida conquistaram o meu coração, brinquei e fizeram-me sorrir em dias tristes. Não eram meus, porque se não gosto não vou ter um na minha vida. Mas lembro-me de visitar um tio meu, o que faço muitas vezes num mês, e estar um pouco em baixo à altura do jantar por motivos de cansaço e esgotamento académico. A cadela dele, que sofreu violência quase toda a sua vida e foi resgatada por esse meu tio, passou os primeiros meses nessa casa depois de sofrer fome e ficar desnutrida, olhou para mim e pedia carinho. Estava pedindo a nossa confiança após dias de nós tentando com que ela visse a nós, humanos iguais aos que lhe causaram dor horrível, mental e física, e perdoasse a nossa raça por alguma vez quebrar a regra de “viver e deixar viver”. Sorri e agradeci-lhe, e após esse dia sempre que me vê corre até mim e os meus pais, pedindo por aquele carinho na cabeça, entre as orelhas, como ela gosta. Não gosto de cães, mas é impossível não dizer que certos cães e animais conquistam o nosso coração. Para sempre.

Então porque matar um animal em frente dos olhos do dono, se quando o fazem a essa pessoa assassina causa-lhe dor e raiva previsível?

Numa conversa com uma vizinha minha, meses atrás – talvez um ano – fiquei a saber que alguns blocos distantes do meu, estava acontecendo um motim diário. Alguns cães foram treinados para matar qualquer gato que achassem criminoso por simplesmente respirar. Ela havia testemunhado a situação, em frente dum bar populoso. Os cães cercaram a vítima, o dono gritou obscenidades e o animal apareceu sem vida, sem salvação. Nessa conversa ela partilhou que desejava que os seus animais nunca sofressem esse fim trágico – num cerco de olhos espectadores e nenhuma alma que o salvasse ou sequer pedisse que parasse.

Hoje, nem sequer uma hora atrás, regressei a casa. O gato mais novo dessa minha vizinha, estava jazido na beira da estrada. Os seus olhos abertos e sem vida, pediam por perdão. A nódoa negra na sua barriga mostrava a dor que ele sofrera. Ainda ontem, aquele animal amoroso apareceu na minha varanda com olhos alegre e vida. Eu e a minha mãe sorrimos. A nossa gata, a nossa querida companhia, tem estado doente e não sai de casa desde o ínicio do verão porque não tem forças para tal. Não é a primeira vez que um gato vizinho nos procura com saudades dela, na varanda da frente e traseira, lugares onde ela costumava estar e brincar ou observa-los. Esse gato e a minha gata, gostavam de estar juntos. Chamava-mo-los de “namorados”, porque um estava dum lado da janela a encostar o nariz  contra o vidro, e o outro repetia o processo. Era amoroso.

Agora ele está morto.

Era cedo de manhã, eu estava arrumando algumas coisas na minha sala de estar. Um ladrar raivoso, alguns gritos humanos e obscenidades foram ouvidas e captaram o meu medo e atenção. Corri para a varanda, pensando que alguma criança estava sendo atacada por algum cão, como tantas vezes temi. As palavras “filho da” seguido dum palavrão horrível ouviu-se, dirigido a um pobre gato que nunca magoou ninguém e sempre deixou-me tocar-lhe. Não consigo perceber o que se passa, e de repente vejo. Dois cães saltam-lhe em cima, lançam o seu corpo para o ar e o dono pede-lhes que o matem, matem sem misericórdia. A minha vizinha, a dona, sai e a neta dela leva a mão à boca. Um grito sai dela e a face dela fica branca. Pedem-lhe que volte para casa e beba um copo de água com açúcar. A mulher grita para o homem, pede-lhe que pare e que não o mate. O homem não ouve. O gato salva-se da morte certa, escondendo-se debaixo dum carro que lá estava estacionado. Um segundo gato salta da vedação e esconde-se no segundo carro. A raiva de não atingir o gato chega ao dono do cão, que desiste após dois minutos e puxa os cães pelo pescoço para leva-los para as suas prisões.

Algumas horas depois, o gato está morto. A vingança foi paga, mas qual vingança será se a única coisa que estão a vingar é o facto de uma raça de animal estar viva? Um animal amado, cuidado e que lutou pela sua vida.

E nunca ninguém vai-se importar, porque acham que o bem está feito. Menos um gato, mais segurança. (Mas os cães é que causam ataques). Menos um gato, mais paz. (Mas os cães é que nos causam noites em branco). Menos um gato, um prémio Nobel da paz.

Isto está justo? Ver o nosso próprio animal ser assassinado aos nossos olhos, é justo? As sociedades protectoras de animais nada fazem, porque nada está errado. A polícia não se importa, porque não são humanos. As câmaras municipais ignoram, porque não é trabalho deles. Um assassino nasceu e até atacar um ser humano, não irá ser culpado. O dono que o fez ficar sedento por morte nunca será culpado. Treinam cães para matarem animais, culpam a natureza canina pelas mortes humanas.

Fazem a arma, mas culpam a lâmina por matar. Não o que a usou.

Porque é assim que as coisas funcionam neste mundo.

  • Elizabete Reis

Crónica de Vida #5

Os cheiros são comboios de memórias, com destinos incertos.

Um cheiro é tudo o que basta para voltar atrás no tempo. Um cheiro é suficiente para sermos criança uma vez mais. Um cheiro é algo tão simples como ar nos nossos pulmões, mas é o que faz o nosso cérebro pesquisar em memórias antigas e recentes, por algo que se relacione. Um cheiro. E não falo de cheiros desagradáveis e que trazem momentos que queremos esquecer ou até mesmo cheiros bons… mas que a nossa mente associou a um evento que preferíamos nunca lembrar. Isso aconteceu-me hoje. Mas não é o que me leva a escrever isto… um outro cheiro dançou dentro de mim.

Há dias comprei uma mochila que andava na minha lista de desejos e hoje, quando a abri para buscar os meus pertences, este cheiro chegou ao meu cérebro como uma lâmpada que acende no topo da minha cabeça. Senti-me com 17 anos, segurando um dos meus cadernos de histórias e mp3, no meio do jardim da cidade, esperando pela minha altura de ir para as aulas. Nesse ano o meu horário permitia-me umas horas no jardim, e como era a 25 minutos a pé da escola secundária, podia muito bem desperdice-lo aí. Mas quando essa memórias dissipou no ar, voltei a abrir a mochila e inalar o mesmo cheiro. Agora sentia-me como acabada de chegar á aula e ver as minhas amigas e colegas acenarem-me para sentar-me com elas e partilhar aquela aulas e horas que havia tido livres. Consegui ouvir as nossas conversas no fundo da minha cabeça. Banais – “sabes o que a rapariga atrás de mim fez na aula?” -, interessantes – “vi caixas a chegar na Bertrand!” – ou mesmo convidativas – “um croissant de chocolate para o almoço?”. E tão cedo como começou, acabou a memória.

“Mãe, esta mochila lembra-me de algo” murmurei, ao passo que sentia o tecido do interior nos meus dedos. Deixei-a na mesa da sala de jantar e movi-me até ao quarto, para partilhar com vocês. Para mostrar-vos que este sentido, um dos cinco sentidos, é talvez o mais nostálgico de todos. Dou muito valor á visão e aos outros sentidos, mas não há nada como o cheiro. Todos sabemos que o cheiro a pão quente pela manhã abre o apetite. Como o cheiro adocicado de gomas faz-nos sentir água na boca literalmente. Como o cheiro a chuva no alcatrão lembra os meses do Inverno. Qualquer cheiro faz-nos guardar memórias, sem nós nos apercebermos. Só quando as abrimos da gaveta pequena onde estavam guardadas… é que nos apercebemos e dizemos para nós próprios, com o maior dos sorrisos:

“Isto cheira a felicidade”

– Elizabete Reis ❤

P.S: Adicionei uma primeira frase ao texto. Veio-me assim à cabeça ao partilhar no facebook e vi-me obrigada literalmente a fazê-lo!

Crónica de Vida #4

Será que minimizamos as nossas emoções? Será que ignoramos as nossas necessidades emocionais e psicológicas? São perguntas que faço a mim mesma, e a resposta é positiva. Quando era criança e chorava, gritavam comigo e diziam para parar, como se chorar fosse algo errado, um crime cometido por ser emotiva. Cresci odiando chorar, escondendo as minhas lágrimas e vivendo a vida como se nunca o fizesse. Todos nós já ouvimos a “para de chorar, ou dou-te um motivo para o fazeres”, mas em que ajuda isso? Será a dor psicológica, menos importante que a dor física? Ou terá a dor psicológica, diferentes graus? Quando era adolescente jovem, chorava por ser humilhada. Mas amigas minhas criticavam-me, porque isso não era nada e chorar não ia ajudar – porém, quando alguma rapariga chorava por um coração partido (o que, devo dizer, nunca ficou literalmente partido) diziam-lhe para chorar, deitar tudo para fora. Não me digam que não existe discriminação para o tipo de dor, que existe. Uma queda é mais aceitável, que sentir-se sozinho no mundo. Não ter amor retribuído é pior que não ter forças para se levantar porque a dor pesa-nos no peito. Cresci assim, com teorias feitas por mim que quando ditas em voz alta, todos respondem automaticamente com um “mentira!”. Porém, nunca foi mentira, se para mim é verdade. Diziam que a Terra era quadrada, e quem admitia que era afinal redonda, que lhe acontecia? Exactamente a mesma coisa. Só porque em geral achem que é duma maneira, não significa que seja essa a verdade.

A dor não é aceitável. A dor emocional é um taboo, meus caros, quer queiram quer não. Há quem tenha dores emocionais que os impeçam de fazer a vida diária, mas alguém importa-se? Chamam de “preguiçoso”, como se o chorar porque não consegue ter força para fazer o que mais gosta, fosse ser “preguiçoso”. Chamam de “exagerado” como se ser honesto fosse crime. Chamam de “fraco” como se lutar contra a própria mente fosse fácil. Mas isto não tem só a ver com dor emocional e psicológica. Tem a ver com a ilusão. Existem pessoas que sofrem com doenças invisíveis, com dores físicas que não se demonstram por cortes, gesso ou nódoas negras. Estão em dor, quer os outros queiram quer não, quer se importem quer não, caso queiram acreditar ou não. Mas são olhadas de lado, como se a sua dor fosse nada porque o vizinho do lado tem uma dor pior ou sinais que a demonstram. Só porque tu perdeste um amigo para a morte, devias estar feliz porque não foi a tua mãe e pai? Não. Perdeste alguém, não existe escala de dor. A dor não pode ser medida, só sentida.

Para finalizar, digo-vos… a pior coisa que já ouvi e já vi dizerem a outros foi “há quem tenha pior que tu”. Para quem alguma vez disse isso, respondo: “Há quem tenha melhor que tu”. Porque a frases burras, respostas burras são necessárias.

– Elizabete Reis ❤

P.S: Não quero ofender ninguém, não é esse o meu objectivo. Acho que todos os pontos de vista são necessários.

Crónica de Vida #3

Nunca. Mas é um grande nunca. Um daqueles que atravessa Portugal, Espanha, França e sabe-se lá mais o quê. Nunca! – repito – NUNCA! Mas é que nunca – onde ia? – nunca deixem os vossos sonhos. Sim, tu! Não desistas! Porquê, perguntas? Crescemos com base em sonhos, imagens de uma vida que desejamos e que nos dá forças para continuar. Crescemos com eles… então porque é que muitos os matam antes de criarem raízes? Qual erva-daninha, qual o quê – mataste uma bela roseira ou girassol límpido que perdeu o sol da sua vida. Eu cometi esse erro a minha vida. Matei-me estudando para um curso que achei o perfeito para mim, com vários sonhos postos em segundo lugar. Tinha um sonho, não podia – forçava-me a pensar noutro sonho, pensando que esse era o original, e quando esse não consegui, conformei-me com uma opção que muitos apontavam para mim. Foi um erro. Por motivos de saúde tinha já perdido dois anos da minha vida no secundário, e via-me a perder mais um… importei-me, sim, importei-me. Senti-me em baixo sabendo que tinha 20 anos e não sabia que fazer da minha vida. Mas às vezes temos de impor-nos e pôr ordem na nossa vida – mesmo que percamos “anos”. Nunca os perdemos – há sempre algo a aprender nesse tempo, nem que seja uma lição de um erro que cometemos. De que é um ano perdido se trabalhamos umas dezenas em algo que gostamos? É preferível passar décadas em algo no qual não nos inserimos, só por ser mais cómodo? Talvez por isso cometi um erro maior, e aos olhos de quem sabe disto, eu cometo um erro gravíssimo. Tenho recebido olhares maus por isso, e isso não ajuda… mas também tenho tido apoio ao qual agradeço muito, se bem que essas pessoas não têm o link deste blog. Acho que cometer um erro é preferível do que viver com a alma de quem nunca arriscou.

Talvez por iso digo… NUNCA cometam um erro de seguir os sonhos dos outros. Sejam eles maus ou bons. Não são os vossos! Sigam os vossos sonhos, sigam-nos! Veremo-nos no fim da linha, e espero que sigam o caminho correcto.

Este texto saíu um pouco das minhas linhas habituais, ando um pouco bloqueada na escrita, mas tudo se faz com amor e carinho, e acreditem que pus um pouco de mim neste texto.

– Elizabete Reis

Crónica de Vida #2 – Ensino e Mentalidade

O ensino em Portugal em nada me anima. Não sou ministra, não sou professora ou aspirante a tal, mas sou estudante. Com os meus vinte anos, já estudo faz quinze anos e por isso, como todos os alunos, tenho voz no assunto, tal paciente sobre o estado da saúde. Mas não é culpa apenas de quem organiza as aulas – é culpa da mentalidade.

Comecei com pré-primária, ficando na mesma escola para o meu primeiro ano de “verdadeira educação”. Era uma criança diferente… muito criativa, fechada e amante de ler – este último o contrário de uns quantos alunos, com os quais tive o “prazer” (que nem sei se prazer foi) de partilhar. Lembro-me de ter oito/nove anos, não juro qual dos dois era, e ter a disciplina “Pesquisa”. Todas as quartas-feiras, à tarde, tínhamos à nossa disposição uma biblioteca com televisão, um daqueles computadores antigos e várias caixas de VHS e disquetes ao lado. Desde o primeiro dia, quando me explicaram que aquela hora semanal serviria para nós lermos e aprendermos mais, eu – amante do estudo como era – deliciei-me. Eram algodão doce para mim, e malditas ervilhas e brócolos para os outros, refeições que os nossos pais enfiam na nossa boca como castigo, achamos nós. Quando a professora dizia “escolham um livro para ler”, eu corria para as estantes – os restantes perguntavam se podiam brincar. Quando a professora dizia “vamos ver um documentário”, eu era a primeira a sentar-me e preparar-me – os meus colegas reclamavam e escolhiam os VHS de filmes, tentando dar a volta. Percebi, então, que era estranha. E fui tratada como estranha. Certo dia, foi-nos imposto que fossemos brincar para o recreio. Eu, porém, sentei-me como uma ermita ao pé duma estante à espera das palavras “podes ler”. A conversa com a professora foi estranha. Ela forçava-me para ir brincar, e eu pedia com olhos de cachorrinho abandonado se podia ler. Achei eu… deviam estar alegres que uma criança quisesse ler, estudar, aprender, evoluir! Mas não. A mulher ficou chocada e praticamente puxou-me para o recreio, tratando-me como um alienígena no nosso planeta, como alguém que devia ser guiado com um pau de três metros, não fosse a doença pegar pela respiração – que doença esta? A de sede por conhecimento!

Isto avançou até ao nono ano. Devorei enciclopédias ilustradas com os meus olhos, avancei anos no Inglês nas minhas horas de almoço e estudava dois passos em frente. Porém, não sabia que estudar quando o nono ano chegava ao seu agora trágico e desejado fim. Desde os meus sete anos, quando andava com uma enciclopédia médica debaixo do braço,  que oiço as palavras “ela” “será” “médica” na mesma oração, frase, parágrafo e diversas páginas.  E assim cresci, achando que o cálice de ouro era seguir medicina. No fim dos meus catorze anos fiz um teste vocacional. Com medo que mostrassem a alguém e quebrasse o plano de ser médica, aldrabei o teste vocacional, mas não o suficiente… deu-me assistente social, medicina e línguas. Fiquei horrorizada. Após oito anos ouvindo “médica é o futuro! Dá honra à família! Faz-nos orgulhosos!” – fiquei com dúvidas. Mas inscrevi-me em Ciências e Tecnologia e quando o dia chegou – fui à minha primeira aula do décimo ano. Sentia que assim estaria correcta. Entrei na sala de aula e senti-me fora de lugar, assumindo que eram os nervos do primeiro dia… peguei do meu caderno e escrevi um pequeno texto. Digo-vos, era com as palavras que sorria, não com as células e átomos. Química era um peso para mim, Biologia enojava-me. Física dava-me dores de cabeça, Matemática fazia-me dormir. Inglês? Português? O tempo passava a correr nessas disciplinas. Cada composição pedida era uma desculpa para descansar. Mas o medo de ter de desistir do meu passatempo quando acabasse o secundário assustava-me. Sentia-me paralisada num mundo que não queria. Tentei mudar de curso, mas seria eliminar dois anos da minha vida. Comecei a duvidar, duvidar seriamente. Ouvia as conversas do “estás na área errada”, por parte de colegas, “devias estar em Línguas”. De familiares. De amigos. Mesmo assim, continuei. E agora estou num curso da minha área que adorei desde os dez anos, cumprindo um quase sonho de anos para deitar tudo a perder. Todavia, muita gente tenta dar-me a volta dizendo que porque tenho capacidades, devia gostar dum curso. Usam a desculpa de “sem licenciatura não és nada” mas isso é uma falácia, digo desde já. A mentalidade está estragada. As pessoas metem o sucesso em frente da paixão, seguem trabalhos dos quais não gostam e perguntam-se porque têm um trabalho de lixo. É como fazer comida com ingredientes errados e perguntar “porquê não está igual ao do apresentador do programa?”. É ilógico.

Mas não se pode mudar uma mentalidade. Podes ter todos os conhecimentos do mundo, sair do melhor curso universitário com a média mais alta – mas se a paixão falta-te, serás apenas mais um para a lista dos robôs que a sociedade criou, mais um funcionário amargo que ninguém consegue adoçar.

Sempre fui o futuro duma família, mas o peso nos meus ombros fez-me tombar para o lado mais pesado, em vez de arrumar os livros pesados e cargas de apelo à piedade, seguindo o primeiro sonho que penso às doze badaladas de todos os 31 de Dezembro.

Mas e se o sistema educacional mudasse? Uma decisão adolescente jamais existisse? Que a escolha de área ocorresse mais à frente, quando os sonhos e gostos estão formados? Quando já nos descobrimos, não quando ainda somos tratados como crianças, espantalhos duma vida parva? Afirmo com plena certeza – muitos dos alunos, no auge dos seus quinze anos, têm nem uma pequena ideia do que querem fazer. Para quê por-lhes a criar uma casa da vida, se nem lhes ensinaram como uma casa deve parecer?

Um sistema geral, com disciplinas à escolha do freguês, tanto duma área como doutra, seria mais lógico aos meus olhos. É inadmissível que peçam a jovens a escolherem o futuro, quando a mentalidade destes nem perto de formada se encontra.

Mas isto não é um jogo de ténis com ataques ofensivos – é uma partida amigável onde nenhum ganha, nenhum vence. É a minha opinião, é somente mais uma opinião de quem passou pelo sistema. De quem escolheu, arrependeu-se e agora luta para ganhar forças para acreditar que tudo aconteceu por um motivo.

– Elizabete Reis

12-05-2015

Crónica de Vida #1 – De quem é a culpa?

“Eram nove e meia da manhã. Primeiro intervalo das aulas da manhã tinha começo marcado e término daí a dez minutos. No fundo da sala uma menina, não mais que onze anos, arrumava as suas coisas muito calmamente para seguir caminho para o segundo andar, onde a sua aula de Formação Cívica – à qual todos vãos de corpo, e fogem de alma – iria acontecer por uns míseros, mal aproveitados, odiados e magoados quarenta e cinco minutos. Ela fecha o estojo faz dois minutos que os outros alunos saíram, e o professor cruza os braços avisando-a para despachar-se, pois precisava do seu cigarro e café, e ela só o iria atrasar. Lágrimas brotam dos seus olhos enquanto ela mete a mochila no ombro e sai antes do professor. Vê perante si um corredor cheio de alunos. Engole em seco. Será assim tão díficil andar sobre fogo, como é atravessar um corredor com olhares de nojo sendo lançados a ela? Talvez. Mas é quando lhe puxam pela mochila, jogam os seus cadernos para o chão e empurram-na contra a parede que percebe… o inferno só agora começou.”

Não preciso de outra introdução. Esta é a história de uma rapariga que, como muitos alunos e alunas, são vítimas de bullying. Infelizmente, a palavra bullying nesta sociedade perdeu o seu valor. É como a palavra amor. Todos dizem que sentem e no entanto no fundo não a sentem, fazendo com que alguém duvide da próxima vez que ouvir um ser humano murmurar “amo-te”, mesmo que com aliança no dedo e fotografias que confirmem. Lembro-me de estar numa sala de aula, na parte da frente, cara-a-cara com a professora em questão. Lembro-me porque, não passados cinco minutos da aula começar, dois alunos – amigos, grandes amigos um do outro – começaram a empurrar um ao outro nas carteiras, com punhos cerrados nos ombros e roubos de canetas e gargalhadas. Muitas gargalhadas. E de repente, como se essa palavra fosse tão normal como pão na mesa… ouvi-os dizer: “Professora, olhe! Bullying! Bullying!”. Eles não teriam mais de dezoito anos, e no entanto brincavam com coisas sérias como crianças de cinco anos que aprenderam um novo palavrão. E a situação repetiu-se. Uma e outra vez, e no entanto não havia nenhuma violência naquele acto de brincadeira. Não como a rapariga que anteriormente referi, e que foi empurrada das escadas abaixo. Será que aplicariam tal brincadeira se soubessem que os trinta e sete comprimidos que acumulou ao longo dos tempos fossem o fim da sua história? Não, não o fim dum capítulo. Nem o fim de um livro normal. Mas sim uma saga que ficou por completar, para sempre. A nona sinfonia que nunca vais ser ouvida.

Li uma vez, num página dum site de medicina, sobre o assunto. Algo captou a minha atenção, uma frase aliás. E dizia assim, não palavra por palavra mas por minhas próprias palavras, que as vítimas de bullying, como a rapariga que tenho vindo a referir, são as culpadas de tais actos violentos, quer fisicamente ou psicologicamente ou ainda, socialmente. A culpa era delas, segundo eles. E porquê, perguntam-se? Porque foram elas que escolheram ser assim. Ou por ser estudantes de alto mérito com sonhos de entrarem numa universidade prestigiosa; ou por usarem óculos por falta de vista, ou aparelho porque a mãe natureza não lhes ofereceu os dentes mais belos, mas que aquele pedaço de metal dará uma nova confiança; ou porque não foram capazes de desenvolver capacidades desportivas; ou até por falta de dinheiro numa família com moedas e troco contado. A culpa é das vítimas, por agirem da maneira que são. O que me leva a querer que teremos todos de mudar de atitude, personalidade, gostos, sonhos e estilo porque isso não insere com a normalidade da vida. Não é verdade que somos todos diferentes? Então porque fazer pouco de alguém que segue essa norma básica – todos nós somos diferentes. Mudar por alguém, é enganar, é mentir – é morrer lentamente.

Mas a verdade é que ainda há quem goze com coisas sérias, que invente teorias que só magoam e aqueles que aproveitam-se da oportunidade para sentirem-se no pódio, quando os restantes ficam ou a honorá-los com facadas atiradas à pobre vitima – que em nada alguma culpa tem! – e palavras que queimam na pele para sempre, cicatrizes que nenhum creme ou tempo irá fazer desaparecer. Para sempre são os “feios”, os “gordos”, os “esqueletos”. Os “estúpidos”, os “pobres” e os “fracos” – com esses nomes marcados na testa, braços, barriga, pernas e coração.

Por isso faço não com a minha cabeça, e ponho-me no lugar daquela rapariga. A que pediu a quem a devia proteger naquela escola e recebeu uma gargalhada e um “não posso te ajudar”. A que viu os seus colegas piorarem os insultos, empurrões e assédio. Talvez ela não tomou os trinta e sete comprimidos, talvez ela foi ajudada, talvez ela foi salva. Mas nem sempre é o caso. Aumentam os casos de mortes por violência, diminuem a tolerância das pessoas para as ajudar – é uma proporção que em nada devia ser assim. Somos todos diferentes, mas iguais. Temos sentimentos, fraquezas, tendões de Aquiles, qualidades, defeitos e força. Não deitemos abaixo os outros, só porque a cor verde não nos atrai e a eles anima-os. Pois essa pode ser a cor da esperança, esperança que eles precisam se querem ficar mais um dia nesta vida, esperança de que amanhã… amanhã o inferno acaba e a primavera da paz começa.

– Elizabete Reis ❤

6 de Abril de 2015