Fecha os Olhos e Escreve #24

AVISO: abuso de substância.

Um comprimido para a dor interior, um comprimido para a perda e um comprimido para a injustiça do mundo. De olhos bem abertos, ele observa a embalagem com menos seis, três ontem, três hoje, nova embalagem daquela semana. Sente-se tonto, mas calmo, relaxado. Os stresses do dia, as preocupações da semana, as responsabilidades do mês – já nada lhe dizem. Tudo o que lhe importa são os compostos químicos que circulam no seu sangue e dizem-lhe que tudo ficara bem. Mas não parece suficiente. Um comprimido a mais.

Um copo para a solidão, um copo para a luta contra o mundo e um copo para o desgosto consigo própria. Copo na mão, garrafa na mesa, ela parecia vencida pela vida. Aquele grito do marido, a fuga dele com os amigos, a briga, as nódoas negras. Está adormecida interiormente, mas acordada no seu inferno para sempre. Podia desistir, melhorar, pegar em suas malas e desaparecer no brilho da lua, mas o frio de Fevereiro e a geada que começou impede-a. Que mais pode ela fazer? Um copo a mais.

Conta ovelhas, deita-se de costas e sorri à sonolência que começa a aparecer-lhe. Um comprimido. Dois comprimidos. Três comprimidos. Nada mais parece mais existir, a não ser a paz que aqueles calmantes lhe oferecem.

Conta histórias, dança pela casa e ri sozinha como se nada mais importasse que a felicidade que o álcool lhe trás. Um copo. Dois copos. Três copos. A garrafa acabou e saboreia a última gota, tropeçando á procura da segunda. Ou terceira?

Tudo parece acabar momentos depois. Quando ele acorda, debate-se com um tubo pela garganta e médicos em  seu redor. Ela está numa cama de hospital, com o marido chorando a seu pé. Quem achava que ninguém tinha, pessoas chorando a quase perda dessa pessoa vê. Quem achava que esperança havia desaparecido para sempre, vê uma luz surgindo no horizonte.

Com uma lágrima a cair pelo olho, enquanto o tubo é puxado da sua garganta para o exterior, ele pega na mão da mãe e murmura “desculpa”, enquanto o pai regressa da chamada para o avô, dizendo-lhe que ele havia acordado. Pede desculpa outra vez. São aceites.

Com vergonha a ferver-lhe no corpo, o marido não sabe que dizer. Alguém viu as nódoas negras, algum vizinho proclamou os gritos ouvidos antes. A polícia leva-o para longe dela antes que ele possa tocar-lhe na pele frágil e tantas vezes magoada.

Ás vezes… as coisas ficam piores, antes de ficarem melhores.

  • Elizabete Reis
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