Fecha os Olhos e Escreve #17

Olá! Desculpem não ter publicado mais cedo, mas tive doente e só hoje consegui enfrentar o dia sem estar deitada debaixo das cobertas. Ia escrever uma outra história, mas tive esta espécie de sonho meio acordado enquanto descansava e ouvia uma música, que achei que escrevê-la seria uma ideia de… sei lá. Para dizer a verdade nem sei. Fica aqui o texto da semana, e uma boa semana para vocês!

Estava no limite. Pressões juvenis acumulando dentro do meu corpo humano, posto sob provas de esforço que ninguém consegue suportar sem um esgotamento de forças interiores. Estava no limite, digo-vos. Trancaram-me portas à liberdade, prenderam-me perante possibilidade de escolhas próprias e esconderam a minha liberdade de expressão, com medo que minhas palavras criassem uma revolta mundial. Universal, tal!

Foi num desses dias, quando trocaram-me as conversas com amigos por esfregões de panos sujos no chão, que planeei a minha escapatória. Era mais um dia naquele inferno de crianças arrancadas das estradas perigosas, impostas numa casa ainda mais perigosa – só que com uma fachada de tinta branca e mármore. Uma menina de nove anos tentava reconstruir as costuras de uma camisola vermelha. Vi-a esconder um grito com uma careta. A maldita agulha picara-lhe o dedo pela sétima vez.

“Chega” gritei, jogando o pano para o canto e erguendo-me. As costas doíam-me de estar de cócoras por mais tempo que uma criança curvada na sua máquina de jogos “É Fevereiro, está frio e nem um casaco nos dão”

“Não há dinheiro” ecoou a menina, como que a voz da nossa suposta mãe tivesse substituído a sua mente.

“E comida? Eles podem comer os seus bifes e caviar, e nós temos o quê… pão e água?” grunhi, cruzando as mãos, raiva ganhando forma nas minhas expressões “Se houver pão”

“Comida é cara”

Andei de um lado para o outro, quase formando um buraco no chão. Não é que fosse má ideia. Talvez me levasse a um mundo melhor que esta prisão escondida nos subúrbios.

“Fizeram-te uma lavagem cerebral” murmurei.

“Não” fez uma careta e levou o dedo à boca, disfarçando as suas palavras “Eles deram-nos um tecto”

“Grande tecto” apontei para cima “Ainda ontem acordei com gotas de água no meu nariz”

Enquanto continuava o meu passeio organizado, a rapariga mais velha entrou pelo quarto e vasculhou pelos nossos armários. Tentei perceber o porquê. Ela já vivia aqui fazia muitos anos, e com os seus quinze anos a lei ainda a mantinha presa neste inferno na terra. Nunca dissera uma palavra, nunca atacara alguém. Limitava-se a fazer o que lhe era pedido. Jantar. Limpeza. Babysitting. Uma vez ouvia-a na cave, gritando por salvação. Os gritos eram tantos, que só havia uma explicação possível.

A sua inocência havia sido trespassada com treze anos.

E é aí que vejo-lhe uma gota de sangue cair da palma da mão para o chão. A menina, Jewl, soltou um pequeno grito. Detesta sangue, eu pelo contrário não me enojo.

“Ajuda?” perguntei-lhe.

A rapariga, cujo nome nunca memorizei, não me respondeu. Abriu gavetas, parecia irritada. Batia com as gavetas com um pontapé, e seguia para a próxima. Foi então que fui para debaixo da minha cama, puxei uma caixa de cereais antiga e ao som dos meus remexeres no interior da frágil caixa de cereais de chocolate, a rapariga olhou para mim. Puxei um penso rápido e estiquei-o até ela. Aceitou.

“Temos de sair daqui” eu disse, sem anexo. Sem esperar resposta. Sem esperar algum comentário.

“Eu tenho um plano” ela respondeu, o que me surpreendeu. Mostrou-me a mão com o penso e apontou para a cintura dela. O que vi assustou-me.

“Isso é-”

“Shh” olhou para todos os lados, correu para a porta do quarto e fechou-a. Tirou a arma da cintura e olhou para mim “Eu vou sair daqui”

Aproximei-me dela.

“Leva-me contigo”

Achei que ela iria rir-se, ignorar-me e seguir em frente. Tínhamos um ano de diferença. Ela por regra mandava em mim. Mas eu era rapaz, e ela sabia que eu tinha possibilidade de me defender. Havia ganho nódoas negras a defender-me daqueles dois bastardos que as assistentes sociais chamam de pais adoptivos. Foi então que ela tirou uma faca de dentro do casaco e ma entregou.

“Espera” puxei-lhe o braço, antes de ela sair “O teu nome?”

“O meu nome?”

“Sim” assenti.

Deu dois passos na minha direcção. Reconheci nos olhos dela, o tom cinza da minha mãe. Porque me lembrava disso? Havia sido separado da minha mãe com poucos meses. Dizem que a minha irmã arranjou casa logo, mas o incêndio do nosso lar garantiu-me lugar nos cuidados intensivos. Por isso saltitei de família em família, até levarem-me para estas quatro paredes de terror puro e cru.

“Bertha” ela respondeu, baloiçando o seu peso de um pé para outro “Ou ninguém disse-te o nome da tua irmã?”

Fiquei chocado. E enquanto engolia em seco, ela observou a arma e empunhou-a contra a parede de modo a preparar-se. Eu segurei a faca com força e olhei para os meus pés. Tinha as mesmas botas de combate que os últimos dias. Gastas, mas duras. Os meus nós dos dedos estavam aleijados e tinha nódoas negras nos braços nus. Olhei para Bertha. Consegui ver-lhe um inchaço na barriga e recuei.

“Eu não posso ficar aqui, Bernard” desviou o olhar e espreitou pela porta “Queres sair e lutar… ou ficar e sofrer?”

“Bernard, não!” gritou Jewl, mas a minha irmã mandou-a calar-se.

“Podemos avisar a polícia” baixou o tom “Eles vêm busca-los logo”

E foi aí que assenti e percebi.

Por vezes temos de enfrentar os nossos inimigos, para triunfar na nossa vida.

  • Elizabete Reis
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