Fecha os Olhos e Escreve #6

Escreve um texto com base nesta música:

“Sou um. Neste mundo imenso não existe ser como eu. E mesmo assim, o mundo insiste em querer tornar-me num ser mecanizado, igual aos todos demais. Cresci “querendo” ser um modelo masculino, mas desde logo avisaram-me: não serás um pouco gordinho para tal realização de sonho? Um pouco mais largo que os outros? Se eu sabia que precisava de músculos. Mas e todas as minhas outras qualidades? A minha preservância que levou-me a atingir notas elevadas nos anos escolares? A minha lealdade para família e amigos, que tornou-me numa pessoa de confiança? O meu sorriso que fazia as pessoas julgarem-me feliz? Porém, seria eu feliz? Não. Porque tudo o que diziam-me que devia ser – um sonho alimentado pela minha mãe que via em mim potencial – levou-me à loucura.

Calorias. Hidratos de carbono. Lípidos. Proteínas.

Cardio. Pesos. Força. Resistência. Corrida.

O ginásio tornou-se na minha segunda casa, após a escola. A minha mãe nem se questionava pelas minhas noites chegando tarde a casa, desde que trabalhasse para manter o seu plano de eu tornar-me modelo como ela – agora dona de casa – tornou-se até os seus 27 anos, quando teve-me e parou. O peso da gravidez não a abandonou desde então, e acho que culpa-me, mas decidiu retirar essa culpa quando fiz 10 anos e disse-me com gentileza “vou ajudar-te a seres poderoso.”

Mas eu não queria poder. Queria liberdade!

Foi por isso que aos 21 anos, larguei o meu terceiro trabalho de modelo para uma marca conhecida. Focar-me em números e quantidades? Em tentar ganhar mais músculos pois preferem rapazes com mais massa muscular? Em perder encontros, saídas à noite e dias de verão a dormir até tarde, para ginásio, audições e sessões fotográficas? Tudo aquilo levou-me à loucura. Não descansava bem, andava a tomar suplementos estranhos e a exercitar até ao ponto de exaustão. Que fez-me desistir?

A minha mãe levou-me a um médico desportista, para ver se eu precisava de suplementos de receita médica, ou alguma das teorias estranhas que ela formulava na sua cabeça antes de falar comigo e perguntar “que é que TU queres?”. O médico olhou-a nos olhos e disse: O seu filho está exausto, não parece bem. E pelo o que falou comigo, não está bem”.

O que eu lhe disse, naquele consultório vazio, foi o mesmo que a mim mesmo dias atrás. Não aguento isto. Não tenho saída, a não ser o fim total. A minha mãe nunca aceitaria. E…

Não sei se aguento muito mais.

Saí. Falei com a minha mãe, ouvi berros, gritos e suaves “como queiras” que indicavam o seu estado de desagrado total. No dia seguinte, recusei o trabalho importante, rasguei o cartão do ginásio, e alterei a minha alimentação complicada, por umas saídas com amigos que – mesmo no meio deste furacão de ideias – continuaram a querer falar comigo.

Dias antes sentia-me no limite. Tinha feito muitos danos nos meus membros de sobre-esforço, a minha mente não parava de rodear os números como mulheres desesperados por emprego que encontraram um marcador vermelho e um jornal do dia. Números que eram decisivos. Estava preso naquele cenário, e só queria deixar de ser o protagonista controlado pela realizadora que antes estivera no pódio. Não era eu.

Foi difícil? Foi. Mas por vezes temos de ser os nossos heróis. Mais ninguém pode salvar-nos tão bem, como nós nos salvamos a nós próprios. Só nós sabemos o que nos ajuda. E só nós somos o primeiro lugar das nossas próprias preocupações. “

– Elizabete Reis ❤

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