Crónica de Vida #2 – Ensino e Mentalidade

O ensino em Portugal em nada me anima. Não sou ministra, não sou professora ou aspirante a tal, mas sou estudante. Com os meus vinte anos, já estudo faz quinze anos e por isso, como todos os alunos, tenho voz no assunto, tal paciente sobre o estado da saúde. Mas não é culpa apenas de quem organiza as aulas – é culpa da mentalidade.

Comecei com pré-primária, ficando na mesma escola para o meu primeiro ano de “verdadeira educação”. Era uma criança diferente… muito criativa, fechada e amante de ler – este último o contrário de uns quantos alunos, com os quais tive o “prazer” (que nem sei se prazer foi) de partilhar. Lembro-me de ter oito/nove anos, não juro qual dos dois era, e ter a disciplina “Pesquisa”. Todas as quartas-feiras, à tarde, tínhamos à nossa disposição uma biblioteca com televisão, um daqueles computadores antigos e várias caixas de VHS e disquetes ao lado. Desde o primeiro dia, quando me explicaram que aquela hora semanal serviria para nós lermos e aprendermos mais, eu – amante do estudo como era – deliciei-me. Eram algodão doce para mim, e malditas ervilhas e brócolos para os outros, refeições que os nossos pais enfiam na nossa boca como castigo, achamos nós. Quando a professora dizia “escolham um livro para ler”, eu corria para as estantes – os restantes perguntavam se podiam brincar. Quando a professora dizia “vamos ver um documentário”, eu era a primeira a sentar-me e preparar-me – os meus colegas reclamavam e escolhiam os VHS de filmes, tentando dar a volta. Percebi, então, que era estranha. E fui tratada como estranha. Certo dia, foi-nos imposto que fossemos brincar para o recreio. Eu, porém, sentei-me como uma ermita ao pé duma estante à espera das palavras “podes ler”. A conversa com a professora foi estranha. Ela forçava-me para ir brincar, e eu pedia com olhos de cachorrinho abandonado se podia ler. Achei eu… deviam estar alegres que uma criança quisesse ler, estudar, aprender, evoluir! Mas não. A mulher ficou chocada e praticamente puxou-me para o recreio, tratando-me como um alienígena no nosso planeta, como alguém que devia ser guiado com um pau de três metros, não fosse a doença pegar pela respiração – que doença esta? A de sede por conhecimento!

Isto avançou até ao nono ano. Devorei enciclopédias ilustradas com os meus olhos, avancei anos no Inglês nas minhas horas de almoço e estudava dois passos em frente. Porém, não sabia que estudar quando o nono ano chegava ao seu agora trágico e desejado fim. Desde os meus sete anos, quando andava com uma enciclopédia médica debaixo do braço,  que oiço as palavras “ela” “será” “médica” na mesma oração, frase, parágrafo e diversas páginas.  E assim cresci, achando que o cálice de ouro era seguir medicina. No fim dos meus catorze anos fiz um teste vocacional. Com medo que mostrassem a alguém e quebrasse o plano de ser médica, aldrabei o teste vocacional, mas não o suficiente… deu-me assistente social, medicina e línguas. Fiquei horrorizada. Após oito anos ouvindo “médica é o futuro! Dá honra à família! Faz-nos orgulhosos!” – fiquei com dúvidas. Mas inscrevi-me em Ciências e Tecnologia e quando o dia chegou – fui à minha primeira aula do décimo ano. Sentia que assim estaria correcta. Entrei na sala de aula e senti-me fora de lugar, assumindo que eram os nervos do primeiro dia… peguei do meu caderno e escrevi um pequeno texto. Digo-vos, era com as palavras que sorria, não com as células e átomos. Química era um peso para mim, Biologia enojava-me. Física dava-me dores de cabeça, Matemática fazia-me dormir. Inglês? Português? O tempo passava a correr nessas disciplinas. Cada composição pedida era uma desculpa para descansar. Mas o medo de ter de desistir do meu passatempo quando acabasse o secundário assustava-me. Sentia-me paralisada num mundo que não queria. Tentei mudar de curso, mas seria eliminar dois anos da minha vida. Comecei a duvidar, duvidar seriamente. Ouvia as conversas do “estás na área errada”, por parte de colegas, “devias estar em Línguas”. De familiares. De amigos. Mesmo assim, continuei. E agora estou num curso da minha área que adorei desde os dez anos, cumprindo um quase sonho de anos para deitar tudo a perder. Todavia, muita gente tenta dar-me a volta dizendo que porque tenho capacidades, devia gostar dum curso. Usam a desculpa de “sem licenciatura não és nada” mas isso é uma falácia, digo desde já. A mentalidade está estragada. As pessoas metem o sucesso em frente da paixão, seguem trabalhos dos quais não gostam e perguntam-se porque têm um trabalho de lixo. É como fazer comida com ingredientes errados e perguntar “porquê não está igual ao do apresentador do programa?”. É ilógico.

Mas não se pode mudar uma mentalidade. Podes ter todos os conhecimentos do mundo, sair do melhor curso universitário com a média mais alta – mas se a paixão falta-te, serás apenas mais um para a lista dos robôs que a sociedade criou, mais um funcionário amargo que ninguém consegue adoçar.

Sempre fui o futuro duma família, mas o peso nos meus ombros fez-me tombar para o lado mais pesado, em vez de arrumar os livros pesados e cargas de apelo à piedade, seguindo o primeiro sonho que penso às doze badaladas de todos os 31 de Dezembro.

Mas e se o sistema educacional mudasse? Uma decisão adolescente jamais existisse? Que a escolha de área ocorresse mais à frente, quando os sonhos e gostos estão formados? Quando já nos descobrimos, não quando ainda somos tratados como crianças, espantalhos duma vida parva? Afirmo com plena certeza – muitos dos alunos, no auge dos seus quinze anos, têm nem uma pequena ideia do que querem fazer. Para quê por-lhes a criar uma casa da vida, se nem lhes ensinaram como uma casa deve parecer?

Um sistema geral, com disciplinas à escolha do freguês, tanto duma área como doutra, seria mais lógico aos meus olhos. É inadmissível que peçam a jovens a escolherem o futuro, quando a mentalidade destes nem perto de formada se encontra.

Mas isto não é um jogo de ténis com ataques ofensivos – é uma partida amigável onde nenhum ganha, nenhum vence. É a minha opinião, é somente mais uma opinião de quem passou pelo sistema. De quem escolheu, arrependeu-se e agora luta para ganhar forças para acreditar que tudo aconteceu por um motivo.

– Elizabete Reis

12-05-2015

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