Crónica de Vida #1 – De quem é a culpa?

“Eram nove e meia da manhã. Primeiro intervalo das aulas da manhã tinha começo marcado e término daí a dez minutos. No fundo da sala uma menina, não mais que onze anos, arrumava as suas coisas muito calmamente para seguir caminho para o segundo andar, onde a sua aula de Formação Cívica – à qual todos vãos de corpo, e fogem de alma – iria acontecer por uns míseros, mal aproveitados, odiados e magoados quarenta e cinco minutos. Ela fecha o estojo faz dois minutos que os outros alunos saíram, e o professor cruza os braços avisando-a para despachar-se, pois precisava do seu cigarro e café, e ela só o iria atrasar. Lágrimas brotam dos seus olhos enquanto ela mete a mochila no ombro e sai antes do professor. Vê perante si um corredor cheio de alunos. Engole em seco. Será assim tão díficil andar sobre fogo, como é atravessar um corredor com olhares de nojo sendo lançados a ela? Talvez. Mas é quando lhe puxam pela mochila, jogam os seus cadernos para o chão e empurram-na contra a parede que percebe… o inferno só agora começou.”

Não preciso de outra introdução. Esta é a história de uma rapariga que, como muitos alunos e alunas, são vítimas de bullying. Infelizmente, a palavra bullying nesta sociedade perdeu o seu valor. É como a palavra amor. Todos dizem que sentem e no entanto no fundo não a sentem, fazendo com que alguém duvide da próxima vez que ouvir um ser humano murmurar “amo-te”, mesmo que com aliança no dedo e fotografias que confirmem. Lembro-me de estar numa sala de aula, na parte da frente, cara-a-cara com a professora em questão. Lembro-me porque, não passados cinco minutos da aula começar, dois alunos – amigos, grandes amigos um do outro – começaram a empurrar um ao outro nas carteiras, com punhos cerrados nos ombros e roubos de canetas e gargalhadas. Muitas gargalhadas. E de repente, como se essa palavra fosse tão normal como pão na mesa… ouvi-os dizer: “Professora, olhe! Bullying! Bullying!”. Eles não teriam mais de dezoito anos, e no entanto brincavam com coisas sérias como crianças de cinco anos que aprenderam um novo palavrão. E a situação repetiu-se. Uma e outra vez, e no entanto não havia nenhuma violência naquele acto de brincadeira. Não como a rapariga que anteriormente referi, e que foi empurrada das escadas abaixo. Será que aplicariam tal brincadeira se soubessem que os trinta e sete comprimidos que acumulou ao longo dos tempos fossem o fim da sua história? Não, não o fim dum capítulo. Nem o fim de um livro normal. Mas sim uma saga que ficou por completar, para sempre. A nona sinfonia que nunca vais ser ouvida.

Li uma vez, num página dum site de medicina, sobre o assunto. Algo captou a minha atenção, uma frase aliás. E dizia assim, não palavra por palavra mas por minhas próprias palavras, que as vítimas de bullying, como a rapariga que tenho vindo a referir, são as culpadas de tais actos violentos, quer fisicamente ou psicologicamente ou ainda, socialmente. A culpa era delas, segundo eles. E porquê, perguntam-se? Porque foram elas que escolheram ser assim. Ou por ser estudantes de alto mérito com sonhos de entrarem numa universidade prestigiosa; ou por usarem óculos por falta de vista, ou aparelho porque a mãe natureza não lhes ofereceu os dentes mais belos, mas que aquele pedaço de metal dará uma nova confiança; ou porque não foram capazes de desenvolver capacidades desportivas; ou até por falta de dinheiro numa família com moedas e troco contado. A culpa é das vítimas, por agirem da maneira que são. O que me leva a querer que teremos todos de mudar de atitude, personalidade, gostos, sonhos e estilo porque isso não insere com a normalidade da vida. Não é verdade que somos todos diferentes? Então porque fazer pouco de alguém que segue essa norma básica – todos nós somos diferentes. Mudar por alguém, é enganar, é mentir – é morrer lentamente.

Mas a verdade é que ainda há quem goze com coisas sérias, que invente teorias que só magoam e aqueles que aproveitam-se da oportunidade para sentirem-se no pódio, quando os restantes ficam ou a honorá-los com facadas atiradas à pobre vitima – que em nada alguma culpa tem! – e palavras que queimam na pele para sempre, cicatrizes que nenhum creme ou tempo irá fazer desaparecer. Para sempre são os “feios”, os “gordos”, os “esqueletos”. Os “estúpidos”, os “pobres” e os “fracos” – com esses nomes marcados na testa, braços, barriga, pernas e coração.

Por isso faço não com a minha cabeça, e ponho-me no lugar daquela rapariga. A que pediu a quem a devia proteger naquela escola e recebeu uma gargalhada e um “não posso te ajudar”. A que viu os seus colegas piorarem os insultos, empurrões e assédio. Talvez ela não tomou os trinta e sete comprimidos, talvez ela foi ajudada, talvez ela foi salva. Mas nem sempre é o caso. Aumentam os casos de mortes por violência, diminuem a tolerância das pessoas para as ajudar – é uma proporção que em nada devia ser assim. Somos todos diferentes, mas iguais. Temos sentimentos, fraquezas, tendões de Aquiles, qualidades, defeitos e força. Não deitemos abaixo os outros, só porque a cor verde não nos atrai e a eles anima-os. Pois essa pode ser a cor da esperança, esperança que eles precisam se querem ficar mais um dia nesta vida, esperança de que amanhã… amanhã o inferno acaba e a primavera da paz começa.

– Elizabete Reis ❤

6 de Abril de 2015

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One thought on “Crónica de Vida #1 – De quem é a culpa?

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