Textos Soltos #11 (Sonha, vive, sê)

Passando pelas ruas da cidade, as luzes de Natal aqueciam-me os olhos e abraçavam-me com energia. A minha boca abriu-se em surpresa, vendo o verde contrastando com o vermelho das flores LED, com o azul salpicando a baixa e o amarelo fazendo-me imaginar um sol enorme que arde perto da Terra com paixão. O sol há muito que não anima este lugar, mas a lua não tem problema em tomar o seu lugar. São como dois apaixonados que não se encontram, somente naquele ponto belo da noite – o dito pôr-do-sol. Mas esse já nem perto de agora se encontra: a lua brilha no topo do céu (tão perto, porém tão longe) e mantêm as estrelas presas do espaço, como se fosse sua mãe e as quisesse quietas e bem comportadas perante estranhos e conhecidos. O orgulho de nascer onde nasci faz-me fechar os olhos e apreciar a verdade luz – a do coração da população.

Na distância, um grupo de dançarinas ensaia na cave do edifício – vejo-as pelas grades e imagino como leves devem sentir-se naqueles fatos brilhantes. Talvez leves como uma pena que caiu do topo do edificio, baloiçando no ar até atingir – leve, calma, serena – o betão e esperar que a próxima rajada de vento a transporte para um lugar melhor. Vejo crianças andando de bicicletas neste fim da semana que todos esperam, e ciclistas profissionais com seus fatos aerodinâmicos, luzes animadas por voltas dos pneus e capacetes fixos. Vejo a gelataria, cujas filas não existem pelo frio que congela os nossos ossos e almas. Gelo só irá provocar mais mal. Talvez por isso os cafés enchem-se de clientes querendo aquele liquido quente e amargo, que só o açúcar e palavras amorosas pode adocicar. Café. Natas. Açúcar. Espuma de leite. Chantily. Chocolate. Cacau quente. Chá. Leite. Canela. Tudo isso cresce nos bares de rua, nas suas mesas de metal ou plástico, cinzentas ou coloridas, ou até mesmo brancas com ausência de cor que lhes valha.

Mas será isto a mesma cidade que tantas vezes partiu o meu coração? Não, não é. Isto é a mesma cidade, mas com alegria, vivacidade e paixão – não pode ser a mesma. Então fecho os olhos, inspiro fundo. Abro-os. A cidade que antes imaginei, não é mais nada que uma ilusão. A rua está sem brilho. As estradas enchem-se de carros e seus condutores irritados. As crianças brincam e andam na rua, usando nomes que nem um adulto com boas-maneiras iria dizer ou deixar alguém dizer. Os ciclistas ultrapassam carros e quase provocam acidentes perigosos, com fatalidades. O autocarro buzina para avançar, os passageiros praguejam e criticam os automóveis na distância, porque nem eles ouvem nem nunca irão.

Afundo-me na cadeira. Fecho os olhos. A vida é melhor no sonho. E com os olhos ainda fechados, espero que o meu sonho algum dia seja a minha vida inteira. Será assim tão mau viver nos sonhos? Não pode ser. Pois sem sonhos a lua não é a lua que ilumina o meu caminho, mas apenas um satélite natural; as luzes são apenas para iluminação e a beleza e orgulho em nada é para aqui pedido. Sem sonhos somos nada. E esta rua é um sonho, o meu palco de desejos, a minha busca de alegria.

E ninguém me a tente tirar.

– Elizabete Reis ❤

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