Textos Soltos #9 (Réveillon)

O chão debaixo dos meus pés estava a ser partilhado por milhares de outros com os mesmos motivos que eu. As garrafas de champanhe eram entregues com promessas de serem as mais baratas no mercado. O cheiro a roulottes era mais forte que a maresia e causava-me desconforto e fazia-me questionar, porque não soluções mais saudáveis? Mas não era esse o motivo que me trouxera a esta cidade, tão próxima de mim e no entanto tão distante. As multidões cercavam-me, prendendo os meus pulmões e fazendo-me perder no meio dum lugar que conheço melhor que a palma da minha mão. Dei uns passos e olhei para o céu. Calmo. Sereno. Negro. Estrelado. Belo. Sim, belo! Ó se era belo, com os seus pontos luminosos tal tecto de LEDs comandando por alguém superior. De luvas, calções cintilantes, sapatos confortáveis e um colar chamativo, estava preparada para o próximo Réveillon, o que aquece-me o coração, faz-me fazer desejos e fechar os olhos enquanto os enumero. Não, não vinha um que fosse, naquela altura. Dei uma olhadela ao meu pulso, vendo no ecrã redondo do relógio que faltavam apenas dois minutos. Descruzei os braços, queria deixar a possível alegria entrar no meu peito, fazer ricochete lá dentro e dominar o meu ser. Os cruzeiros soaram, os gritos surgiram e a luz que dizia 2014 alterou um dígito. Sorri. Levantei o braço no ar e gritei com todo o meu ser, como todos os que me rodeavam. Os meus olhos apontaram para o céu e vi as cores mais belas a surgirem uma atrás da outra, todas ao mesmo tempo, sincronizadas e fazendo lembrar-me desenhos que crianças criam na sua diversão mais inocente. O branco, o vermelho, o verde e o maravilhoso roxo! Ó que beleza! Que alegria! Que sorriso! Que entusiasmo! Fiz figas, enunciei os meus desejos na minha mente vezes sem conta. Umas, duas, três, quatro – as cores fizeram-me perder num mar de pirotecnia – cinco, seis, sete. E parei aí. A curva dos meus lábios mantinha-se, o beijo da minha mãe acordou-me dum transe que nem senti que entrara, e o abraço do meu pai fez-me perceber que era mesmo isto – uma noite de madrugada em que cores dançam no céu e saltam para dentro de nós. E quando sabemos que isso acontece? Uma lágrima cai, ao pensar no passado ano e em todas as asneiras e maus momentos passados. Um sorriso nasce, ao reflectir que houve momentos bons. E um grito sucede no fim, quando notamos que toda a gente está connosco. E que, naquele momento, alguém está a olhar para o mesmo céu que nós, sentindo que somos um só e no entanto uma nação. Somos iguais, não há diferenças de classe social, amigos ou inimigos, familiares ou desconhecidos… Somos todos uns, olhando para o mesmo céu, partilhando a alegria e quem sabe, desejos.

– Elizabete Reis

Anúncios

Deixa uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s