Textos Soltos #7 (Como sobreviver a um desgosto amoroso)

Como sobreviver a um desgosto romântico. Nos meus trinta e nove anos nunca ninguém preparou-me para como lidar com um desgosto romântico. Talvez tive péssimos amigos, familiares distantes e fui uma excepção neste mundo dominado por publicidades amorosas e casais de primavera, que aglomeram-se no fatídico mês de Fevereiro. Mas nunca ninguém explicou-me, como superar um desgosto amoroso. Por isso fico trancada na minha pequena casa antiga, parada e sem fazer nada a não ser… respirar e lamentar tal gesto. Ontem acordei eram duas da tarde. Não sabia se almoçava ou ainda tomava o pequeno almoço, e a confusão fez-me querer nenhum e deitei-me no sofá onde adormeci às três da manhã na noite anterior, só para até às seis olhar para o tecto e ver a racha que nascia na parede e que cresceu dois centímetros. Já não estavas lá para arranja-la, e esta crescia a olhos vistos e eu suspirava. Talvez adormecesse logo, pensei. Talvez. Se ao menos tivesse os teus braços para agarrarem o meu corpo quase moribundo e no entanto, bastante vivo.

Aluguei filmes. Comprei livros. Vi séries. Comi gelado. Bati numa almofada. Chorei. Mas nada parece fazer o meu coração regredir e voltar a ser inteiro. Os filmes eram demasiado falsos, os livros eram cansativos, as séries nunca terminavam. O gelado dava-me dores de cabeça, a almofada não sobreviveu e de lágrimas o meu corpo já não é feito. E a cada minuto que passa, o meu coração parte um pouco mais. Agora percebo… tu rachaste-o e fugiste, foi por isso que me deixaste nesta casa fria sem abraços calorosos, beijos reconfortantes e palavras doces. Viste que não tinha conserto e deixaste-me ao tempo. Mas o tempo não cura nada, não há mais peixe no mar que me queira e ninguém parece querer alguém como eu. Os meus pais recusaram-me ajuda, as minhas amigas reviram os olhos e aquela vizinha que antes ouvia agora ignora-me pois as minhas palavras tornaram-se num disco riscado, num ficheiro de voz corrompido, numa tecla presa.

Actualizei a minha rede social para solteira e ninguém comentou. Vi o teu perfil. Diz “solteiro”. A tua ex-namorada comentou e sei que amanhã dirá o nome dela em vez dessa palavra triste para mim, por isso fecho os olhos e rezo por um amanhã que não existe. Se ao menos soubesse o que fiz de errado… deve ter sido grave, para levantares-te e ires embora sem uma desculpa, sem uma explicação, sem uma razão, sem um motivo, sem um… “Adeus”.

Como sobreviver a um desgosto amoroso. Nunca ninguém me disse, nunca descobri o remédio. Sei que o meu coração nunca mais será o mesmo. Porém, sei também, que tu nunca mais estarás perto dele. Pois aprendo com o meu erro, e embora não saiba sobreviver a tal dor, sei que esta dor não será tão forte como no dia em que ele partiu. Pois, meu caro, um coração partido não volta a partir. Pode nunca ser inteiro, mas não se pode partir algo que partido já está. Não se pode quebrar uma jarra que já foi quebrada e esperar que importe tanto. Já está quebrada, foi-se, morreu, é história.

Só espero que alguém tenha cola e paciência. Isso e uma boa dose de segurança, pois após as suas peças serem coladas, é uma jarra frágil na mesma. Mas ai são tão belas as flores que ela leva agora! Como todos param para admirar. E sorrindo, eu abraçarei-me a mim própria, pois foi a minha cola, a minha paciência e a minha segurança que reuniram as peças, pincelaram-nas de cola e juntaram-nas umas ás outras. Não foi preciso um segundo coração, o meu basta para mim. Pois com trinta e nove anos, sei cuidar de mim. E, sei também, que a cura para um desgosto amoroso, é aprender a amar-nos como queremos que alguém nos ame: do interior para fora.

Como sobreviver a um desgosto amoroso.

Apenas… viver.

– Elizabete Reis, inspirada 

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2 thoughts on “Textos Soltos #7 (Como sobreviver a um desgosto amoroso)

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